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terça-feira, 29 de abril de 2014

Em velho ser!


Saudade é o sumo que sai quando tua lembrança me espreme o coração.
Carlos Kurare

TODO FILHO É PAI NA MORTE DE SEU PAI

" Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.

É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.

É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e intransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.

É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela - tudo é corredor, tudo é longe.

É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.

E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.

Todo filho é pai da morte de seu pai.

Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.

E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.

Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.

Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.

A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.

Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.

A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.

Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.

Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?

Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.

E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.

Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.

No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:e

— Deixa que eu ajudo.

Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.

Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.

Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.

Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.

Embalou o pai de um lado para o outro.

Aninhou o pai.

Acalmou o pai.

E apenas dizia, sussurrado:

— Estou aqui, estou aqui, pai!

O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali. "

Infelizmente desconheço o autor do texto acima, caso você saiba, por favor, me avise!

Pai - Fábio Jr

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Cria... Dor



Cria... Dor

Onde existe dor:
Não há CRIAdor.

A dor: crias não permite.

 A dor tende suprimir a arte.
Da dor, nada cresce ou brota.
Talvez sangue, talvez corte,
Talvez um coágulo de aorta.

A dor não tem limite!

E eu, já sem nenhuma cor,
Imploro e grito: AR... dor!

Carlos Kurare

25/04/2012 - Sampa

JIMMY CLIFF - I CAN SEE CLEARLY NOW TRADUÇÃO - LEGENDA

Dor e arte

O poeta e crítico Ferreira Gullar examina a relação entre sofrimento e criatividade

FERREIRA GULLAR

Especial para a Folha

Quando se fala da relação entre a dor e a arte, deve-se distinguir a dor física da dor moral. Em minha opinião _e até onde posso afirmar baseado em experiência própria_ a dor física tende a anular as condições psicológicas propícias à geração da obra de arte. Se não é impossível que alguém, atacado de forte dor física, seja levado, por efeito dela, a elaborar um poema, tal ocorrência seria uma exceção. Uma exceção porque a dor física, se de forte intensidade, tem o poder de anular momentaneamente nossa capacidade intelectual, reduzindo-nos ao nosso corpo _o corpo que dói. E quem produz a arte é o corpo que pensa, que inventa, sonha, fantasia.  O filósofo inglês Alfred North Whitehead, autor com Bertrand Russell, de um livro importante para a filosofia do século 20, intitulado “Principia Mathematica _observou que “quando nos damos conta do funcionamento de nossas vísceras, alguma coisa vai mal. O mesmo Whitehead, desenvolvendo esse ponto de vista, já afirmara, noutra ocasião, que o que caracteriza o corpo vivo é a não percepção dos elementos que o constituem, enquanto integrantes desse organismo. Exemplifico; se minha mão toca em minha perna, percebo a mão e a perna. Mas não percebo os contatos que eventualmente ocorram entre os músculos, tendões e ossos que constituem minha mão; sei que esses músculos, ossos e tendões, existem, mas não os percebo; se sinto a existência de qualquer deles _o que em geral se manifesta pela sensação desagradável a que chamamos dor_ é que ali a máquina do corpo deu defeito.

A cada passo... uma brasa a menos... para o horizonte.

A vida é um caminhar em brasas... Enquanto manteres o ritmo do caminhar... não queimarás os pés.  Carlos Kurare