quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sobre a mentira e crianças.


Cinco tipos de mentira? Esse cara nunca entrou num site de relacinamentos!
Carlos Kurare

SOBRE A MENTIRA

Nelson S. Lima

1.É muito frequente as crianças mentirem?
Nelson S. Lima: Podemos acreditar que sim. Mentem. Tal como mentem os adultos. A mentira pode ser entendida como uma táctica ou como uma estratégia. Como táctica faz parte do "jogo social" e a mentira aparece inserida em imprecisões, omissões, alterações nos conteúdos da comunicação e ocultação. Como estratégia é algo mais elaborado, intencional e visa o médio e o longo prazo. Esta é mais própria dos adultos e nem sempre é isenta de riscos para ambas as partes (quem mente e quem é vítima da mentira).

2.Trata-se de um comportamento mais comum em que idades?
A mentira nas crianças é mais uma táctica usada como um jogo defensivo dos seus interesses, seja por medo, vergonha ou simplesmente aplicação do logro. Aparece por volta dos 4-5 anos de idade. O logro é comum em muitos outros animais e parece pois ser instintivo e ligado à sobrevivência. Nos humanos pode atingir proporções perigosas.

3.Acontece, geralmente, numa altura em que as crianças já são capazes de distinguir a diferença entre Verdade e Mentira?
Sim, quando já têm perfeita consciência de si mesmas e do que as separa dos outros, incluindo os interesses próprios e os alheios. A criança percebe que a mentira pode protegê-la de castigos, de chamadas de atenção incómodas. A mentira é inicialmente uma táctica de ocultação e só depois evolui para níveis mais elaborados e criativos.

4.A mentira é, habitualmente, utilizada com que intuito?
Defensivo. Mas também pode surgir como forma de ludibriar os outros para atingir benefícios. Desenvolve-se nas brincadeiras entre as crianças onde a mentira nasce muitas vezes do "faz de conta" e da fantasia. Veja-se que as vestes carnavalescas não deixam de ser, na sua essência, uma forma de enganar os outros por puro divertimento. É um patamar anterior à mentira: o logro, o ardil.

5.Quais as principais razões? (Chamar a atenção? Receio de alguma consequência de algo que tenha cometido? Medo dos pais? Necessidade de transmitir uma imagem melhor?...)
De tudo um pouco conforme as situações e as circunstâncias mas sempre dependente da personalidade, da educação, do carácter da criança. O medo pode levar uma criança a refugiar-se em qualquer forma de mentira pois sente-se protegida. Mas a criança também pode fantasiar (mentindo) para chamar atenção e obter benefícios afectivos.

6.O facto de a criança recorrer a mentiras pode reflectir um comportamento que lhes é “familiar”? (Podem fazê-lo por imitação?)
Se ela viver num clima onde a mentira é de uso corrente ela aprende por pura imitação. E torna-se mentirosa. As consequências podem ser desastrosas na adolescência e na vida adulta.

7.A criança tem sempre consciência do que está a fazer? Ou, a mentira pode inocentemente ser fruto da sua imaginação?
Tem consciência mas nem sempre percebe o problema sob o ponto de vista da ética e da moral. Inicialmente, ela pode mentir apenas porque está a fantasiar. Afinal, o mundo mente-lhe. Veja uma mentira: o sol não anda à volta da Terra. A verdade está oculta por fenómenos físicos e astronómicos que ludibriam o nosso cérebro. Repare também nesta situação corrente: quando a criança tem medo do escuro ela imagina "papões" que não existem. Então algo está a mentir-lhe. Mas é ela que cria a própria mentira que é ver "monstros" onde eles não existem.

8.Quem são as maiores vítimas das suas mentiras? Os pais? Os amigos e professores?
A primeira vítima é o mentiroso pois enganando os outros está a entrar em "conflicto" consigo mesmo pois ele sabe a verdade e procura alterá-la, fazendo-o viver em contradição. E isso pode ser bastante incómodo. É essa incomodidade que muitas vezes vai fazê-lo revelar a verdade involuntariamente. Os processos cerebrais da informação são postos em choque com a verdade. O conflito torna-se neurológico e mental. Por isso, viver na mentira é desgastante, física e psicologicamente.

9.Também acontece serem os próprios pais a incitar a criança a mentir?
Sem dúvida. Isso acontece quando os pais vivem num ambiente de mentiras, ocultações e contradições. As crianças percebem desde cedo que em tudo há mentiras. Quando ouvem a mãe ou o pai mandarem dizer que "não estão" para, por exemplo, não terem de atender alguém inoportuno. Basta esse tipo de jogos para elas descobrirem que a mentira faz parte das tácticas sociais de sobrevivência e de oportunismo.

10.Este tipo de comportamento por parte das crianças acontece com maior frequência quando têm pais repressivos?
Quando os pais são autoritários e repressivos as crianças sentem-se impelidas a mentir para se defenderem de castigos. É uma das consequências nefastas do excesso de autoridade e da falta de diálogo e de abertura. Acredito que os pais autoritários são tendencialmente os mais mentirosos.

11.Pode ser um ciclo vicioso?
Torna-se num ciclo vicioso. Mente-se para sobreviver; sobrevive-se melhor mentindo sempre que seja necessário. É o raciocínio lógico de um comportamento automático.

12.Os vários tipos de mentira podem ser classificados? (Ou uma mentira é sempre uma mentira não havendo qualquer tipo de justificação para o facto?)
Há, pelo menos, cinco tipos de mentira e vários graus. Uma é a mentira fruto da fantasia infantil. Outra é o logro (o jogo de ludibriar) para obter benefícios imediatos. Outra é a mentira que se torna crime (fraude, etc.) e que obedece, por vezes, a uma pormenorizada planificação (mais própria dos adultos e do crime organizado). Há também a mentira política que faz parte do marketing eleitoral e do jogo da persuasão e, finalmente, a mentira comercial que tantas vezes usa a publicidade como veículo de arremesso.

13.Como devem os pais ou educadores da criança reagir ao “apanharem-na” a mentir?
É uma boa oportunidade não para lições de moral mas para todos os intervenientes pensarem porque a mentira aconteceu.

14.Devem os pais falar com os filhos abertamente sobre os aspectos negativos da mentira?
Sim, desde que tenham autoridade moral para o fazer. Se as crianças "apanham" mentiras aos próprios pais como podem eles reclamar e dar lições sobre os malefícios da mentira?

15.Tem alguma sugestão que os pais possam colocar em prática e que sirva de incentivo aos filhos a habituarem-se a dizer sempre a verdade?
Para começar, os pais devem apostar no exercício da honestidade e da franqueza. Sem medo. As crianças aprendem por imitação. Assim, se os pais forem pessoas honestas e francas não precisam preocupar-se com o problema. Mas, muitas vezes, os filhos aprendem com os outros a mentir descaradamente. Aí, os pais honestos estarão à vontade para escolherem a forma mais adequada para desincentivarem a mentira como recurso.

16.Como devem os pais fazer valer a opinião de que mentir não é solução? Como fazer as crianças perceber o erro?
Os pais podem contar histórias ou relatar casos da vida em que a mentira resultou em problemas. Nos casos reais encontram-se os melhores exemplos para as lições sobre a arte de viver.

17.Este tipo de comportamento já reflecte alguns traços de personalidade da criança que venham a ser determinantes enquanto adulto?
Sem dúvida. Há muitos factores que predispõem as crianças para mentirem com mais ou menos frequência e gravidade. E depois há ainda quer o ambiente familiar quer o meio envolvente (os amigos, os conhecidos, a vizinhança, os filmes, etc.) que podem acelerar e aprofundar o problema.

18.Alguma coisa relevante que queira acrescentar?
Há, hoje em dia, muitos jogos electrónicos em que a mentira, embora disfarçada, faz parte das tácticas. É importante que os pais levem isso em consideração e se informem sobre os conteúdos desses jogos. Alguns podem ser uma verdadeira escola de mentira pois o jogo é, ele próprio, um produto da fantasia e da pura invenção. E podem incentivar o uso da mentira para as melhores jogadas. Há que reflectir sobre isso.

Entrevista publicada na revista HAPPY WOMAN (Maio 2010). Jornalista Mafalda Galambas



Capital humano? E o psicológico?

Nelson S. Lima

O tão badalado e reconhecido capital humano só tem validade se se levar em consideração e valorizar o capital intelectual e o capital psicológico.


Infelizmente, tem-se dado importância ao conhecimento (daí o valor do capital intelectual das organizações) sem se levar em conta que este de nada serve se o colaborador se sentir desmotivado, inseguro e infeliz no emprego. Ele pode ser o mais genial dos executivos ou o mais eficiente trabalhador da fábrica mas aquilo que irá disponibilizar ou inibir o seu capital de saber e experiência será o seu estado emocional, ou seja, se psicologicamente estiver entusiasmado, motivado, otimista e feliz com o seu emprego, seus patrões e o ambiente humano que vigore em sua equipa.


Não se entusiasmem muito as organizações por recrutarem os melhores talentos! Isso de nada vale se esses talentos não estiverem felizes, não se sentirem livres para pensar, criar e decidir, não se sentirem reconhecidos.


Muitos fracassos empresariais não decorrem da falta de clientes (de mercado) ou da falta de recursos materiais mas sim da falta de IDEIAS, ENERGIA PSICOLÓGICA, ESPÍRITO DE EQUIPA, VONTADE DE VENCER, CONFIANÇA NO FUTURO e muito mais.


O mundo está em transformação mas as pessoas também. Elas podem estar num emprego por falta de alternativas mesmo sofrendo maus ambientes; mas tão pronto encontrem uma empresa que lhes ofereça um ambiente estimulante de trabalho elas vão embora. A coisa pode ficar preta se ela for para uma empresa concorrente pois levará seus conhecimentos e informações que poderão prejudicar a empresa que a deixou escapar por falta de uma psicologia positiva em seu trabalho anterior.


Que se cuidem as empresas pois as pessoas estarão cada vez menos dispostas a aceitarem administradores obtusos, idiotas, ignorantes e insensíveis. E há muitos dessa raça mesmo que em seus gabinetes exibam orgulhosamente bonitos diplomas de liderança!

Nelson S. Lima

Consultor de Psicologia. Neuropsicólogo. Doutorado em Investigação. Membro da Association for Psychological Science. Presidente do Instituto da Inteligência (Portugal) e Managing Director de Future Intelligence Management (Inglaterra). Representante da revista NEUROCIENCIA & NEGÓCIOS e de Zigma Consulting Group (América Latina) na União Europeia. Colunista de IDADE MAIOR (Portugal). Formador do Institute for International Research. Colaborador da revista EXECUTIVA XXI (Angola). Analista de Projectos da REDDO (Brasil) na Europa. Membro da SETTI.


Pega na mentira - Sany & Jr. - Composição Erasmo Carlos

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