terça-feira, 5 de outubro de 2010

Pastel de vento...



Como viver? Como passar os dias? Com a sensação de comer apenas pastel de vento?
Sem a emoção da chegada ou da partida. Sem a dor da perda, sem as grandes alegrias das conquistas, sem um amor arrebatador? Como continuar a comer pastel com recheio de vento frio e gosto de papel?
Eu hoje confesso vivo a comer pastel de vento e “insuculento”. Sem sustância sem cheiro. Mas vasculho com ardor por feiras livres a procura de um arrepio papilar. Errante que sou. Erro nas coisas do amor. Sou andarilho, vagueio por ruas, avenidas, e ladrilhos em busca de lugares, gentes e cores. Ando a cata de um único pastel. Que tenha recheio quente! Quente de vida! A ponto de queimar-me os dedos, os lábios e a língua! Que me aqueça de tal maneira por dentro, que eu não sinta mais o frio do estomago vazio. Ah! Quase posso sentir no ar, o delicioso aroma de palmito, queijo e tomate, das feiras livres de muitas cidades, que um dia hei de encontrar.
Às vezes falo com pessoas que me contam fatos valiosos de suas vidas, são momentos ricos, que por associações me remetem aos meus momentos preciosos. Pessoas tocam-me com certas palavras de uma maneira especial, esse toque não tem preço. Pois ao abrir o relicário da memória e ouvir a música embalada em papel de lembrança é algo mágico. Se você tem lembranças que lhe dão beliscões de torquês no coração, que fazem brotar lágrimas nos olhos de dor e emoção. Sinta se feliz por ter a dor das lembranças, sejam tristes sejam boas, são recheios de uma vida. Vida de gente não de espectro de gente. Saiba se ainda não lhe contaram que você é gente da mais alta qualidade!
Lembre-se há muita gente fria por ai, gente linear, que simplesmente passa como uva-passa!
Há muita gente a comer pastel de vento!



ILUSÕES DA VIDA
Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.
Francisco Otaviano de Almeida Rosa





Nas vezes que pude ter roseiras, sempre me perguntei: por que flores tão lindas e de tão suave fragrância têm espinhos? Hoje percebo que a pergunta estava errada. O que tenho que compreender é: por que espinhos têm rosas?


Há o pastel de vento, e há o de sentimento, mas não há sentimento na cor pastel. Sentimentos sempre são coloridos de sabor como um arco-íris!
São Paulo - 4/10/2010 18:57

Carlos Kurare


Cotidiano / Baioque / Você vai me seguir - Chico Buarque

Dica da Valéria, que comeu muito pastel de feira recheado dessa música.


Juventude transviada - Luiz Melodia e Cassia Eller - Comp. Luiz Melodia

10 comentários:

MJ FALCÃO disse...

Tudo bonito!!! Adorei ouvir o Chico Buarque. Inesquecível. E "Tanto Mar"?
Abraço
falcão

Lee disse...

Sou "gente da mais alta qualidade"...e você...tenho certeza... também o é!

Anônimo disse...

Puxa vida, mas que lindo esse texto do Pastel de Vento ... achei que era de sua autoria mesmo, agradável de ler, o quê mais posso dizer??? Parabéns ao Carlos querido!!! Silvana Bacana.

Carlos Kurare disse...

Obrigado meninas!
Mas...eu só trabalho aqui! :0)

Falcão: Tanto mar está a caminho!
Silvana: o texto e o pastel são de vento! E ambos são meus! :0)
Lee sou tipo vitrola antiga, tô mais pra alta fidelidade que pra alta frequência! :0* Ops!
Carlos Kurare

Anônimo disse...

Parabéns pelas postagens de hoje, como sempre, de qualidade, bom gosto e humor inteligente.
Cristina

Rê Liberato disse...

Eh, Chico!!!! Esse homem me faz pensar cada coisa...rsrsrs Adorei a metáfora...pastel de vento...feiras...Porque espinhos tem rosas será a minha pergunta do dia...Talvez seja porque se amam...porque formam um par...talvez porque um não é nada sem a referência do outro...Ah!!!De novo o Amor...O Maturana, um biólogo chileno diz que a essência humana é amorosa, gentil e cooperativa. Competição e violência sã aprendizados da cultura...Pois é...como diz o Melodia...com um luxuoso auxílio do pandeiro...vai ver..espinhos são aprendizados necessários para conhecer as rosas...Como diria o Cartola..."...Queixo-me as rosas...mas elas não falam...simplesmente exalam...um perfume que vem do outro..." Chega de filosofar, criatura...trabalho...papapá...trabalho...papapá...rsrsrs Beijos de novo...parabéns querido, pela qualidade que vem de você...

Erika Azevedo disse...

Poeta, músico, humorista... Mas, das muitas faces de Carlos Kurare, fascina o ser humano, antes de tudo; o Homem extra terrestre, extra humano, extra amor que é. Você disse que não gosta de receber elogios (desmentiu, claro) mas é inevitável que um artista como você, não os receba diariamente.
Parabéns e obrigada por tudo.
Na casinha na serra que estou construindo, pode não ter pastel de palmito, mas tem pão de queijo (uai) e bolo de fubá com coalhada...

Carlos Kurare disse...

Erika,
A única coisa que sei tocar é vitrola!
Quanto aos elogios, recebo sim! Todos os dias, afinal, moro com minha mãe!
vALTER Ego diz: lá se vai mais uma penca de candidatas, eita lingua solta!
Só que como meu pai mora junto, já viu né! Recebo um monte de broncas também.
Carlos Kurare

Erika Azevedo disse...

Sua voz é instrumento que toca nossa alma. Por isso, o músico.
beijos no seu coração.

Carlos Kurare disse...

Erika...
Neste momento só me ocorre dizer: Palavras muitos gentis as suas...um beijo na sua alma!
Carlos Kurare

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